Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosse a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo,
antes de a morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca
Há obras de arte que nos fazem perceber como de facto o amor deve ser. Um poema que nos diz que devemos acordar para a vida e vivê-la intensamente, seja luta ou prazer. Ou um filme que nos demonstra nos olhos de uma personagem ou pela realização de uma perda irremediável.
O filme "Love and Prejudice" mostra o amor pelos olhos de um homem torturado por uma sensação completamente nova e inesperada que consome todas as instâncias da vida. Mostra como uma mulher deve ser tratada e como a arrogância nos afasta de quem nos procura com insegurança.
O filme "Paited Veil" mostra como um erro não destrói necessariamente todas as hipóteses de um amor verdadeiro, daqueles que cresce com o tempo, que ultrapassa as primeiras, segundas e demais aparências. Mostra como o amor pode cavalheiro, persistente, insistente, espontâneo, bruto e desesperante, sem nunca desistir, sem nunca morrer. Mostra como as segundas oportunidades devem ser concedidas e aproveitadas.
É pena não podermos apreciar a nossa vida como um filme. Aperceber-nos-íamos de muitos mais pormenores, sentimentos, ilusões, ... A vida seria definitivamente mais fácil e divertida. But then again, perderíamos a emoção, a liberdade de escolher.
Não vou tirar nenhuma conclusão espectacular. Não que ela não exista. Mas simplesmente porque é óbvia.








Pelo plano traçado no Terreiro do Paço, seguimos para as Portas do Sol. E que boa surpresa! Não só é um miradouro fantástico para o toque entre a cidade e o rio, como também é um lugar recheadinho de romance e História. Antes de chegar ao miradouro, duas pérgolas muito bonitas se estendem ao sol em conjunto com um bonito jardim. Um painel em azulejo, sem manutenção ou cuidado nenhum, mas ainda assim muito bonito, está ao fundo do jardim, e do outro lado fica uma pequena igreja, pertencente à Ordem de Malta, antigamente constituinte dos Templários. Debaixo desta, pedra sobre pedra, ergue-se o que já foi um ponto de entrada na muralha da cidade. A sua construção começa nos visigodos, estende-se pelos muçulmanos e pelos portugueses. Sendo parcialmente destruída pelas batalhas, de novo, voltava a ser erguida. As suas pedras representam a História de Portugal na sua essência e isso sente-se ao tocá-las.
Subindo a pique até ao Castelo de São Jorge, notámos a Lisboa bairrista, das casas pequenas e viradas umas para as outras, com os seus pequenos jardins e ruas apertadas e o seu distinto carisma.
Ainda assim, a teimosia fez-nos apreciar o que podíamos, de fora para dentro. E vimos a sobreposição de pedras, oriundas desde o tempo dos fenícios até hoje. Sim, porque ainda hoje se reconstrói o Castelo de São Jorge. E quem vê o Castelo de fora, pode descobri-lo na exploração arqueológica que se está por lá a fazer. Ficam como pormenores engraçados o habitante vigilante da casa “1ª” (como se apresenta), parte da muralha do Castelo, e o “chefe de cozinha” que nos observou (não é Ana?). Esta fica só para nós. :)
Seguiu-se a Feira da Ladra que estava a fechar e, depois, o Panteão Nacional. Para além de completamente desenquadrado de tudo o que se desenhava à sua volta e de parecer apertado por entre tanta Lisboa, Decepciona-me que por entre os nomes que ali se homenageiam se encontre o de Amália Rodrigues. Não quero diminuir a importância do que fez em vida, mas muitos mais nomes se levantam muito antes do seu. E fica como exemplo sem discussão Aristides de Souza Mendes. Ninguém pode negar que o seu nome no Panteão apenas elevaria um pouco mais do valor deste monumento. Seria uma ode ao que ainda lá falta representar de Portugal: a caridade.
Na volta, vimos dois miúdos à pancada e a infeliz complacência de quem assistia. Apenas três homens intervieram e quando a polícia se anunciou, os miúdos fugiram. Mau retrato da cidade, mas que já esperávamos, infelizmente. Ficámos a conhecer também o Limoeiro que dá nome a tudo o que o rodeia: praça, rua, travessa, etc. Lindo, enorme, imponente na sua velhice e jovem nos novos ramos que despontam.
No final do dia, janta e dormida. O cansaço era demais para qualquer outra coisa.



